Brasil pega fogo e Temer toca harpa

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O Brasil afunda lentamente, como um barco em chamas, e o presidente postiço Michel Temer toca harpa, como Nero. Enquanto a rebelião dos policiais militares do Espírito Santo se agrava e se alastra, registrando mais de 120 mortes nas ruas da Grande Vitória, o ministro licenciado da Justiça, Alexandre de Moraes, cabala votos, em rega-bofe num barco do senador Wilder Moraes no Lago Paranoá, para ocupar a cadeira do Supremo Tribunal Federal vaga com a morte do ministro Teori Zavascki. E nem precisava disso, porque não existe o menor risco do seu nome não ser confirmado. Primeiro, porque Temer tem maioria folgada no Senado; segundo, porque grande parte dos senadores da Comissão de Constituição e Justiça que vai sabatiná-lo está na mira da Lava-Jato e precisa dele no STF para safar-se; terceiro, ele tem um forte cabo eleitoral, o ministro Gilmar Mendes; e quarto, ele conta com o apoio da mídia, a mesma mídia que até recentemente o criticava e que, agora, descobriu nele as qualidades que até então não havia percebido.

O Brasil, na verdade, sob o comando de Temer, parece um barco sem rumo, à deriva. Mas a tripulação (Congresso, Judiciário e mídia) continua dando inteiro apoio ao seu comandante que, sentindo-se seguro, não se importa com a situação dos passageiros (o povo). O caos instalou-se no país, onde os criminosos tomaram conta dos presídios; onde os bandidos estão tomando conta das ruas, encarcerando a população em casa; onde a autoridade desapareceu e um comandante da PM (Espirito Santo) critica o governador e se recusa a obedecê-lo; onde o desemprego continua crescendo; onde a economia está no fundo do poço; onde o petróleo está sendo entregue ao capital estrangeiro; onde as suas grandes empresas privadas estão sendo destroçadas; onde a Justiça deixou de ser justa; onde a intolerância e o ódio se generalizaram. E onde a grande imprensa deixou de ser informativa para transformar-se em partido político. Diante desse quadro terrível, que salta aos olhos até de um cego, cresceu a possibilidade de uma intervenção militar.

Ninguém consegue prever o desfecho dessa situação caótica, onde é visível a inépcia do Presidente da República para encontrar soluções, até porque já há quem admita o risco de confrontos armados, considerando-se o clima de guerra existente em Vitória, ambiente que pode espraiar-se para outros Estados. Já há sinais de rebeldia no Rio de Janeiro e no Pará, onde as famílias dos policiais militares, seguindo o exemplo das capixabas, se preparam para deflagrarem idêntico movimento reivindicando melhores salários. Se isso se confirmar as Forças Armadas certamente serão chamadas de novo a dar segurança aos cidadãos, como no Espírito Santo, o que vai acabar se caracterizando como uma intervenção. E se, por acaso, houver uma ordem para que os militares assumam o controle dos quartéis da PM? O presidente da Associação dos Cabos e Soldados da Policia Militar do Espirito Santo, cabo Noé da Matta Ribeiro, já advertiu para a possibilidade de uma tragédia. O que será que ele quis dizer com isso?

Apesar da gravidade da situação, onde a convulsão social já se torna visível, Temer se mostra mais preocupado em salvar os amigos, como Moreira Franco, citado em delações premiadas, nomeado ministro para ganhar foro privilegiado. Até a “Folha de São Paulo”, que foi avalista do golpe junto com outros jornalões, já percebeu que Temer não mais se preocupa sequer com as aparências, talvez pela consciência de que tem o Congresso, o Judiciário e a mídia do seu lado. Ele só não tem do seu lado o povo, embora a Constituição Federal estabeleça que “todo o poder emana do povo e em seu nome será exercido”. Na verdade, já faz algum tempo que a Carta Magna virou letra morta, o que de certo modo explica o fato de Temer ter o poder sem precisar do povo. E a Suprema Corte, a sua guardiã, já se habituou a fazer vista grossa para as frequentes violações, sobretudo por parte da Lava-Jato, o que contribui para a manutenção do clima de insegurança jurídica que tomou conta do país.

A propósito, somente agora, depois da sua contribuição para o impeachment da presidenta Dilma Rousseff e do estrago feito na economia do pais, sob o pretexto de combater a corrupção, é que o jornal “O Estado de São Paulo” descobriu que a Lava-Jato extrapolou em sua operação, “cujos evidentes méritos não são garantia de infalibilidade das pessoas que nela atuam”, segundo disse em editorial. Pela primeira vez um jornalão criticou o projeto dos procuradores, classificando “as tais Dez Medidas Anticorrupção”, como “estripulias incompatíveis com o Estado Democrático de Direito”. O jornal cita, entre “os abusos explícitos contidos no bojo do projeto”, a aceitação de provas obtidas ilicitamente, restrições ao habeas corpus e o fim do prazo de prescrição. E aponta Deltan Dallagnol como um dos procuradores que “defendem a possibilidade de condenar uma pessoa mesmo que paire alguma dúvida se de fato ela cometeu o crime do qual é acusada”.

O jornal dos Mesquita se revela surpreso com “a ausência de vozes a denunciar essas ideias equivocadas”, como a da OAB, por exemplo, e conclui afirmando que tais ideias são preocupantes, acrescentando que “mais preocupante ainda é a falta de reação diante delas”. Não deveria se surpreender, porque sua voz também esteve ausente no momento oportuno. Na verdade, esse editorial, que soou agora como um libelo contra a Lava-Jato, foi escrito com bastante atraso, pois tudo isso já foi dito por vários jornalistas na época em que o projeto foi apresentado e votado, com emendas, pela Câmara dos Deputados. Na época a proposta recebeu o apoio da mídia, estimulando uma reação favorável da massa ignara sugestionada com a ideia de combate à corrupção. O procurador Dellagnol, citado pelo “Estadão”, chegou a ocupar grandes espaços na mídia por defender, inclusive dentro da própria Câmara, a aprovação da proposta em seu texto original. Finalmente o jornalão viu os abusos que os procuradores pretendiam transformar em lei, provavelmente porque somente agora alguma coisa limpou o cisco que turvava a sua visão. Antes tarde do que nunca.

 

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