Wildy Viana: um colecionador de parafusos

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Em 2010, o senador Jorge Viana concedeu uma longa entrevista aos jornalistas Elson Martins e Fernanda Birolo, para um projeto de memória da Biblioteca da Floresta, no qual foram ouvidas cem pessoas. Na ocasião, ele traçou um perfil amoroso do pai, Wilde Viana, que lhe ensinou a lutar na vida pelas boas causas e a valorizar a história acreana e dos povos da floresta. A seguir destacamos parte desse depoimento que revela um homem simples, trabalhador, bom pai de família e, principalmente, um homem apaixonado por sua terra.

Jorge Viana:

– Nosso avô por parte do pai, Virgílio Viana, veio para o Acre numa leva de paraibanos da região de Patos, de Campina Grande. Segundo ficamos sabendo, Viana vem também de Portugal, mas meu avô por parte de pai seria de uma família Viana que ficou com um N só. Eu, Tião, e papai ainda não conseguimos encontrar descendentes dele. Sabemos que veio para cá e aqui casou com a Sebastiana, minha avó acreana. As minhas duas avós, as duas mulheres matriarcas da família eram genuinamente acreanas; tanto a mãe do meu pai, como a mãe da minha mãe. Isso pra mim é motivo de orgulho porque, obviamente, os meus pais (Wildy Viana e Silvia) são genuinamente acreanos. Minha mãe tem 91 anos hoje (2017), e meu pai tem 87. É interessantíssimo que minhas raízes sejam “mais acreanas impossível”; e também tem essa simbologia da migração nordestina e também europeia, que exatamente formou o Acre; foi gente vindo de outras partes do mundo, gente vindo do nordeste, juntando com gente e com a originalidade de envolver boliviano na história; então é daí que surgimos nós. Talvez isso explique esse amor, essa paixão, essa devoção, esse orgulho pelo Acre, por ser daqui da cabeceira dos rios. Desde pequeno a gente foi colocado de frente com a história do Acre; meu pai era um colecionador de livros da história do Acre, fã incondicional de Plácido de Castro. Ele apresentou os heróis todos a mim e ao Tião, que éramos dos quatros irmão, os que mostravam mais afeição por eles.

– Eu nasci em Rio Branco em 1959, no dia 20 de setembro, na maternidade Bárbara Heliodora. Eu, a Silvinha e o Tião nascemos na mesma maternidade. Apenas nosso irmão mais velho, o Wilde, já falecido, nasceu em Brasiléia. Eu estou com 58 anos (2017). O papai vivia em Brasiléia, onde com a crise de 30, meu avô Virgilio perdeu todo o patrimônio que tinha. Ele chegou à região por volta de 1930, e nesse período o meu bisavô Raimundo Falcão era um dos grande seringalistas do Acre, administrava 4 a 5 seringais. Na época, com a crise de1929, todo mundo ficou endividado. Ninguém pagava ninguém, ele teve que fazer um contrato de cinco anos com as casas de aviamento em Belém pra que todo o movimento dos seringais dele ficasse comprometido para fazer o pagamento da divida em cinco anos; nesse intervalo, ele faleceu de malária e até hoje a gente não conseguiu achar os restos mortais dele.

-Quando nossa família veio morar em Rio Branco, a nossa casa ficava quase em frente do Colégio Acreano, na esquina da rua Benjamim Constant com a Quintino Bocaiúva. Era um terreno grande, com uma casa daquelas antigas, com 4 águas, com varandinha, mas uma casa muito modesta. Então, ali morava minha mãe quando solteira; ainda ali meu pai conheceu minha mãe. Meu pai veio de Brasiléia, era escrivão de policia, tinha sido alfaiate e exercido outras profissões, tendo tido sempre uma vida muito simples. A mãe do meu pai morreu quando ele era criança. Ele praticamente não conheceu a mãe e meu avô teve umas noves mulheres. Ou seja, meu pai teve 8 a 9 madrastas. Quando ele era novinho, a dificuldade da família era grande e o dinheiro era pouco; ele foi ser magarefe (na época não era açougueiro, era magarefe). Ele trabalhava como magarefe em Cobija, na Bolívia. Meu pai veio depois para Rio Branco, como radiotelegrafista. Naquela época era o homem da comunicação, o profissional que possibilitava às pessoas se comunicarem usando o código Morse. Ele trabalhava na Radional, onde é hoje o Museu e Teatro Hélio Melo. Virou funcionário da União aposentado. Minha mãe era funcionaria do IBGE. Eles casaram, meu pai fez contabilidade na ETICA, a escola de contabilidade acreana, depois chegou a estudar um pouco de Heveicultura. Eles tiveram 4 filhos: Wilde, meu irmão mais velho já falecido, a minha irmã Silvia, depois eu e o mais novo, o Tião. A gente sempre viveu a maior parte do nosso tempo ali próximo ao Colégio Acreano, aqui próximo da Capoeira na rua Quintino Bocaiúva, esquina com a Benjamim Constant, próximo também do Parque da Maternidade ou canal da maternidade.

– nossa família era bem acreana mesmo, bem de Rio Branco. A gente não tinha posses maiores, até que meu pai virou político. Porque, quando ele chegou aqui, era radiotelegrafista; e também foi fazer o censo agropecuário, foi ser recenseador e ganhou um dinheiro. Ele tem uma memória fantástica, aí resolveu ser candidato a vereador. Visitou todo mundo, tinha que andar de casa em casa, o que o trabalho como recenseador ajudou. Isso foi em 1962 ou 1963.Teve eleição pra vereador e ele foi candidato a vereador numa coligação PTB com outro partido, não lembro qual. Depois ele foi para a UDN (União Democrática Nacional). Como era radiotelegrafista, tinha fonia lá em casa e ajudava as pessoas que queriam se comunicar com outras regiões, com o mundo inteiro. Ele tinha antena, consertava rádio, ganhava dinheiro com isso. Minha mãe costurava e ele consertava equipamento eletrônico. Ele sabia tudo desse negócio de eletrônicos. Isso me fez apaixonar pelo rádio, eu era curioso e ficava com ele numa central de radiotelefonia; naquela época não existia telefone, então era o telegrafo que atendia, pra falar era preciso fazer uma conexão com alguém do Mato Grosso, ou com alguém em Goiânia, combinava depois para passar o recado a alguém no Rio de Janeiro. De um jeito parecido, o avião passava dois dias numa viagem ao Acre, tinha que pernoitar no interior do Mato Grosso ou em Cuiabá pra poder chegar. A comunicação também demorava 2 dias para acontecer entre Rio Branco e Rio de Janeiro. Papai era um colecionador de parafuso, tudo que ele encontrava (que as pessoas jogavam fora) ele catava e guardava. Lá em casa tinha sempre uma casinha de madeira cheia de quinquilharia. Quando alguém quebrava uma máquina qualquer e precisava de um parafuso, podia ir lá em casa que tinha seu problema resolvido. Na cidade não tinha loja para vender nada disso.

-O papai usava da inteligência: ele guardava coisas de metal, principalmente, enriquecendo sua oficina com peças difíceis de serem encontradas no comércio. Era um recurso interessante, porque navio e outras embarcações que viessem de longe só chegavam por curto tempo no fim do ano. Com a enchente do rio. Depois disso, você ficava um ano dependendo de aviões que mal transportavam passageiros. Ou seja: meu pai era um homem da comunicação, que cultiva boas relações com as pessoas. Quando ele resolveu se candidatar, usou bem esse negócio de equipamento eletrônico. Na época (1962/1963) existia já o megafone, mas a carga de bateria era uma enormidade, acho que exigia doze pilhas, o aparelho era pesado e caro. Ele fez a campanha mais ou menos assim: falava com as pessoas no meio da rua e pedia voto de casa em casa. Ele mesmo utilizava o carro de som para pedir voto, e conseguiu ganhar. E fez sua carreira politica até chegar a deputado federal.

 

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