Bacurau

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Francisco Augusto Vieira Nunes, o nosso querido “Bacurau”, nasceu em Manicoré, no Estado do Amazonas, em 09 de dezembro de 1939, filho de João Monteiro Nunes e Elvira Vieira. Era o oitavo de onze irmãos e teve uma infância saudável até os cinco anos de idade, quando apresentou os sintomas da hanseníase. Iniciou-se aí o drama que marcaria toda sua família. A mão esquerda inchada denunciava a forma virchowiana da doença, a mais grave, pois é contagiosa e apresenta sinais visíveis, como inchaços, bolhas e feridas.

Naquele tempo, o preconceito e a ignorância da sociedade eram tremendos. Ainda em Manicoré, autoridades locais invadiram a casa de Bacurau. Mas seu pai de facão na mão não permitiu que o levassem. Algum tempo depois, aproveitando a ausência do pai, a polícia sanitária voltou e levaram à força, por engano, seu irmão Pedro, que nunca mais foi encontrado.

Depois de passar um tempo internado no Hospital Colônia de Porto Velho onde recebeu o apelido que carregaria por toda a vida, Bacurau veio, em 1957, para Rio Branco morar com o irmão e a partir de 1960 se internou voluntariamente na Colônia Souza Araújo. Começava ai a trajetória de lutas e trabalhos sociais que revelaram a extraordinária capacidade deste homem tão especial.

Foi prefeito, durante cinco anos, da Colônia Souza Araújo. Neste período se formou pelo Projeto Minerva e logo se tornou professor contratado pela Secretaria Estadual de Educação. Entregou-se intensamente, então, aos trabalhos de evangelização e de conscientização social propostos pela Teologia da Libertação.

Em 1980, Bacurau escreve uma Carta-programa para a criação do Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase, o Morhan, cuja fundação se dá no dia 06 de julho de 1981. E depois de criar um núcleo do Morhan em Rio Branco, em 1982, passa a viajar por todo o Brasil para divulgar o movimento. Seu trabalho tem tal impacto que, já em 1983, é convidado a ser membro permanente do Conselho nacional de Saúde.

Ainda no início da década de 80, filiou-se ao recém criado Partido dos Trabalhadores. Foi candidato a deputado constituinte e a vereador de Rio Branco. Entre 1992 e 1996, trabalhou como coordenador da dermatologia da Secretaria Municipal de Saúde, durante a gestão de Jorge Viana na Prefeitura de Rio Branco.

Mas José Augusto Nunes Vieira, Bacurau, era também compositor e escritor, tendo várias músicas cantadas em celebrações e missas. No auge dos conflitos entre fazendeiros e seringueiros no Acre, em1988, mesmo ano da morte de Chico Mendes, sua composição “João Seringueiro”, venceu o Festival Acreano de Musica Popular – FAMP.

O trabalho, a força e os ideais de Bacurau foram vistos e ouvidos no Brasil e no mundo. Por isso recebeu inúmeras homenagens. Percorreu mais de 30 cidades italianas proferindo palestras, recebeu o Prêmio Nacional Raoul Follereau, foi recebido pelo Partido Comunista Italiano e pelo Papa João Paulo II. Viveu um dos mais importantes momentos de sua vida com a fundação da IDEA – Integration Dignity and Economic Advancement, que ajudou a criar.

Dias antes da sua morte, em janeiro de 1997, Bacurau pediu à sua extraordinária companheira de todas as horas, D. Tereza Prudêncio, que colocasse na sala de sua casa um papel com a frase ”Aqui viveu um homem feliz”.