Manoel Urbano da Encarnação

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O Grande descobridor das terras acreanas se chamava Manoel, mas não era português. Realizou seu maior empreendimento navegando águas desconhecidas, mas nunca conheceu uma caravela. Não era branco, mas um caboclo escuro, quase negro. Não era europeu, mas amazônida nascido no Manacapuru. Não deixou registros próprios porque não sabia escrever, mas deixou seu nome inscrito na memória e na história da Amazônia ocidental.

À semelhança dos navegadores europeus do século XVI, Manoel Urbano da Encarnação, em pleno século XIX, se lançou no desconhecido, sempre ao arrepio das correntes, rio acima, percorrendo os vales do Purus, do Iaco, do Aquiri, do Iquiri e de outros rios, igarapés e varações.

No principio da década de 1850 a administração da Província do Amazonas nomeou Manoel Urbano da Encarnação e João da Cunha Correa como diretores de índios do Purus e do Juruá respectivamente. O governo amazonense buscava organizar e taxar a atividade dos coletores de drogas do sertão que, provavelmente, já percorriam livremente essa região desde o principio do século XIX. Além disso, Manoel Urbano tinha também a missão de percorrer os rios que cortavam a região para averiguar a possibilidade de ligação entre os afluentes do Purus e os do rio Madeira, que se confirmada poderia dar origem a uma nova rota comercial desde o sul do continente americano.

Assim, coube a Manoel Urbano da Encarnação a primazia de percorrer essas terras desconhecidas estabelecendo o primeiro contato oficial com os povos indígenas da região. E, diferente de outros exploradores de nossa história, Manoel Urbano passou a estabelecer com esses povos uma relação de respeito e cooperação.

O geógrafo inglês William Chandless se referiu a Manoel Urbano como um caboclo com grande inteligência natural, Castelo Branco mencionou o fato de que ele era chamado pelos índios como Tapauna Catu, o negro bom, aquele em quem se pode confiar. Se tornou também um povoador e estabeleceu assentamentos permanentes de base indígena que serviram como ponta de lança da ocupação nacional da região. Entre seus muitos filhos, Braz Gil da Encarnação e Leonel da Encarnação se fixaram próximo à boca do Ituxi/Iquiri e outros pontos do Purus. Não havia prático mais hábil na navegação dos rios repletos de balseiros e rebojos traiçoeiros. Diziam que ele tinha cento e vinte anos, ou mais. É que aos poucos Manoel Urbano da Encarnação foi deixando de ser apenas um homem comum e se tornando uma verdadeira lenda nesses rios e barrancos, um mito da floresta.