Océlio de Medeiros

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Océlio nasceu em Xapuri, neto do Coronel Benedito Medeiros, seringalista como todos os coronéis daquela época e um dos primeiros a desbravar essas terras em fins do século XIX, pouco depois de João Damasceno Girão. Filho do Major João Felipe de Medeiros, descrito com muito orgulho por ele como um dos heróis da Revolução Acreana e responsável pela importação das armas utilizadas pelos revolucionários contra os bolivianos.

Como era de praxe entre as famílias mais abastadas daquela época, mandaram Océlio estudar fora e tão logo ele voltou, já formado, o Governador do Território o convidou para trabalhar a frente do Departamento de Educação.

Foi uma época de grandes noitadas em companhia de Juvenal Antunes e outros boêmios da cidade que protagonizavam então histórias verdadeiramente impublicáveis pelas ruas da cidade de Rio Branco. Assim, não demorou muito para que o governador envolvesse Océlio num caso que causou espanto na tradicional sociedade acreana da época.

Não restou então ao Océlio outra saída senão partir do Acre, talvez para sempre, ele pensava. Assim se deu sua primeira morte. E como vingança pelo exílio (uma morte em vida) a que o haviam condenado escreveu “A Represa” ainda a bordo do navio que o desterrou ao longínquo Rio de Janeiro, em 1942.

Só nos anos 70 conseguiria finalmente voltar ao Acre. Entretanto, o Acre que encontrou em seu retorno estava convulsionado. A floresta estava sendo transformada em pasto e a sombra da morte rondava à solta nas ruas e nos varadouros. Abriu então sua banca de advocacia ali no bairro da Base, onde atendia a todos que podiam ou que não podiam pagar seus honorários.

Mas é claro que Océlio tampouco deixou de aprontar das suas e contam que algumas festas promovidas por ele na boate Poronga que funcionou ali no Aeroporto Velho deram lugar a acontecimentos tão impublicáveis quanto aquelas outras histórias dos anos 40. E não demorou para que novamente se visse forçado a partir do Acre, antes que ele mesmo se tornasse a próxima vítima dos acontecimentos. Océlio como que morreu então, pela segunda vez. Mas não deixou de escrever diversos livros contra a devastação que estava ocorrendo no Acre então, bem como sobre suas vitimas, como Chico Mendes. Assim era Océlio, a cada morte uma necessária vingança.

Durante as comemorações do centenário da Revolução Acreana, 2002, voltou a Xapuri e mais uma vez pode dizer: “eu hoje renasci para o Acre”.

Mais recentemente, em 2010, Océlio de Medeiros morreu de novo. Mas não espiritualmente como das vezes anteriores, mas agora de forma definitiva. Com isso empobreceu-se mais um pouco o espírito irônico e divertido do Acre. Afinal como ele mesmo dizia: “O acreano tem o espírito de Gavroche, aquele personagem francês que é sinônimo de ironia e deboche. Quem quiser gostar do Acre tem que aprender a gostar da ironia e do agudo senso critico dos acreanos.”