Chico Mendes

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chicomendes1Ele nasceu no dia 15 de dezembro de 1944, no seringal Porto Rico, nas matas do Xapuri. Era o tempo da Batalha da Borracha. O mundo em guerra precisava da borracha acreana e graças a isso os seringais haviam voltado a se encher de gente e riqueza. Recebeu o nome do seu pai: Francisco Alves Mendes Filho, mas como todo menino Francisco muito cedo virou Chico.

E o menino cresceu vendo seu pai sair ao amanhecer para entrar na floresta e dela trazer o sustento da família. Logo Chico começou a aprender aquele oficio. E, nem bem completou nove anos, já cortava seringa sozinho para ajudar no sustento da família, revelando que havia herdado também a solidariedade de sua mãe, Iracê Mendes.

Em 1955, a família se mudou para o seringal Equador, colocação Pote Seco, próximo do seringal Cachoeira. Nessa época Chico já sabia ler um pouco graças ao pai. Mas, perto de completar 18 anos, conheceu um homem que vivia sozinho e isolado de todos. Seu nome era Euclides Távora e ele era um exilado político que havia fugido para o meio da floresta no tempo da Intentona Comunista.

Chico caminhava três horas pela mata para visitá-lo nos fins de semana. Euclides possuía jornais e rádio a pilha, através dos quais ensinava-lhe a ler e ouvir sobre as lutas sociais. Conversavam sobre a ganância capitalista, sobre as utopias socialistas e sobre a exploração dos seringueiros pelos patrões. Por isso quando estourou o golpe militar de 64, Chico, agora um rapaz feito, entendeu com clareza o que estava acontecendo e que o que os militares estavam planejando para a Amazônia não seria bom para os seringueiros do Acre.

Chico começou a ajudar seu povo. Fazia reuniões, formou um grupo de alfabetização, explicava a realidade das coisas e tentava organizar os homens e mulheres da floresta em cooperativas para acabar com a exploração dos patrões. Foi ameaçado e perseguido por causa disso. Os tempos estavam ficando mais e mais difíceis. A terra estava sendo invadida pelos “sulistas” que vinham para “derribar” a floresta e substituí-la pelo gado. Mas sem floresta aqueles homens e mulheres não sabiam viver. Além disso, os novos donos da terra não reconheciam os mínimos direitos dos seringueiros e famílias inteiras foram expulsas das colocações onde moravam havia décadas.

Aqueles que foram para as cidades só encontravam miséria e descaso. Era evidente, então, que era necessário defender a floresta como quem defende a própria vida. Decidiram então criar em Brasiléia o primeiro Sindicato de Trabalhadores Rurais do Acre, em Brasiléia, e Chico se tornou seu primeiro Secretario Geral. E os seringueiros agora organizados começaram a “empatar” a derrubada da mata e impedir que outros seringais virassem pasto.

Logo, a idéia se espalhou. Novos sindicatos surgiram, a igreja se solidarizou com a luta dos seringueiros em defesa da terra e da floresta, principalmente através das Comunidades Eclesiais de Base, intelectuais e jovens das camadas médias urbanas também começaram a apoiar aquela luta.

Chico foi eleito vereador em Xapuri e como resultado do seu trabalho parlamentar foi preso e torturado em segredo. A luta dos trabalhadores crescia e com ela crescia também a violência dos novos donos da terra. Cerca de um terço da floresta acreana foi negociado com os novos patrões recém-chegados do centro-sul. Wilson Pinheiro, o corajoso Presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia foi assassinado covardemente pelas costas. Ivair Higino e muitos outros lideres dos seringueiros também tombaram sob a sanha dos jagunços e pistoleiros.

As populações indígenas do Acre, que conheciam como ninguém a opressão, se juntaram aos seringueiros fortalecendo a resistência. Chico assumiu a liderança dos seringueiros e ajudou a fundar no Acre o Partido dos Trabalhadores e a CUT. Além de comandar a organização do Conselho Nacional dos Seringueiros e a realização do 1º Encontro Nacional dos Seringueiros onde propôs a formação da Aliança dos Povos da Floresta, superando antigos conflitos históricos, para impedir a extinção de seus modos de vida tradicionais.

Finalmente o mundo “civilizado” começou a prestar atenção àquela luta de homens simples em defesa da floresta. E Chico se tornou o porta-voz de seu povo. Foi ao estrangeiro, falou aos ambientalistas, capitalistas e banqueiros. Falava da necessidade de criar reservas extrativistas, da possibilidade da exploração comunitária e racional da biodiversidade amazônica, da urgente criação de unidades de conservação, demarcação das áreas indígenas, estudos de impacto ambiental nas estradas e outros grandes projetos em curso na Amazônia. Por isso, recebeu diversos prêmios, entre eles o “Global 500” concedido pela Organização das Nações Unidas por sua luta em defesa da floresta.

 Ao mesmo tempo, porém, cresciam as ameaças de violência e morte contra ele. Não demorou para Chico ter sua morte anunciada e, apesar de todas os alertas e denuncias à imprensa e autoridades, ao fim da tarde do dia 22 de dezembro, Darcy Alves, a mando de seu pai Darly Alves assassinou Chico.

Mártir da causa popular e ambiental Chico Mendes tornou-se desde então símbolo da defesa da floresta e de suas populações. As idéias que Chico defendeu impregnaram os corações dos homens de bem desse mundo e sua voz se fez ainda mais forte.