Temer vai comer o pão que o Cunha amassou

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Temer deu uma boa notícia à nação ao anunciar que não vai comparecer à cerimônia de encerramento da Olimpíada.

Ele faz um bem inestimável a ele mesmo e aos brasileiros quando não aparece em público. A sua presença é sempre um desastre, porque sua figura, mesmo calado, lembra cada vez mais a de vilão de filme B de Hollywood, o que estraga qualquer cerimônia. Quando fala, então... nem se fala!

Cartazes "fora Temer" e mais uma sonora vaia provocariam, de fato, mais um desgaste às vésperas da consumação de seu golpe – não um golpe de estado, diga-se, mas um golpe rasteiro, vulgar, barato, mesmo porque ele não tem a dimensão de um Getúlio Vargas para dar um golpe de estado – mas seus problemas não vão acabar aí; vão começar.

Consumado o impeachment por obra e graça de 60 senadores que vão passar para a história como traidores da pátria, queiram ou não, porque essa ruptura vai aprofundar todas as crises hoje esquecidas pela população, hipnotizada pela Olimpíada, terá início a sua via crucis.

A sua situação é muito diferente da de Itamar Franco em 1992. Itamar não tinha votos, tal como ele, mas também não tinha denúncias de corrupção, não tinha oposição, não deu golpe e seu antecessor ostentava 100% de rejeição, desse modo houve clima para formar um ministério suprapartidário, maior do que ele. O que tornou possível atravessar os dois anos de governo-tampão mais ou menos satisfatoriamente, comparando com o período Collor. Não se formou nenhum movimento "Fora Itamar".

Temer vai comer o pão que o Cunha amassou. O "Fora Temer" vai se intensificar, colocando-o no dilema entre deixar rolar ou reprimir, os petistas na oposição são muito melhores que no governo e vão usar de todos os meios para inviabilizar o seu, que já começa debilitado.

Aqui entre nós: o único ministro que tem cara de ministro é Henrique Meirelles, mas a sua missão, recolocar a economia do país nos trilhos é tarefa de gincana, pois a instabilidade política que se prenuncia não favorece a estabilização e muito menos crescimento econômico.

Vai chegar um momento em que Meirelles vai ter que optar entre bancar a andorinha (que, sozinha, não faz verão) ou arrumar sua trouxinha e voltar ao seu habitat, que é o mundo dos bancos.

Todo governante tem uma espada de Dâmocles pendendo sobre a cabeça. No caso de Temer, são várias espadas de Dâmocles.

Uma delas é a espada Eduardo Cunha. Cassado ou não, preso ou solto ele será uma ameaça iminente e constante que não deixará Temer dormir ou governar em paz. Quanto mais concessões Temer lhe fizer, mais exigências Cunha fará. E essa imagem de que Cunha pode acabar com o governo Temer, que já é consensual na imprensa, vai deixar o presidente tampão (ou tampinha) permanentemente com a pulga atrás da orelha, atormentado por dúvidas sheakspereanas.

A outra espada chama-se Aécio Neves. Ele comanda o partido que pode garantir ou liquidar a governabilidade de Temer, mantendo ou retirando apoio.

Nessas eleições de outubro a aliança PMDB-PSDB vai passar por sua primeira prova de fogo. É uma aliança fisiológica, circunstancial, oportunista, cujo ponto em comum é derrubar Dilma e o PT, depois do que ela não tem razão de ser. Em todas as capitais, vide São Paulo, os dois partidos são adversários ferrenhos, o que vai impactar as eleições de 2018. Dificilmente os tucanos vão manter a aliança depois de outubro próximo, pois então vai começar a campanha da sucessão presidencial, na qual o PMDB vai ter candidato, que não é Aécio. Ou Aécio continua aliado de Temer e sua candidatura naufraga ou se impõe como candidato e rompe a aliança e começa a apontar os erros e os equívocos de Temer, se quiser ter alguma chance de sucesso.

A terceira espada de Dâmocles é o TSE que a qualquer momento pode cassar a chapa Dilma-Temer, já que não faltam delações premiadas para comprovar que a campanha do vice decorativo foi alimentada por contribuições ilegais, como todos já ficaram sabendo com a divulgação dos segredos de Polichinelo que Marcelo Odebrecht pretende tornar públicos em breve.

A quarta espada de Dâmocles é a Lava Jato, na qual Temer aparece cada vez mais como o tesoureiro-mor do PMDB, pedindo pessoalmente e recebendo contribuições polpudas oriundas de desvios da Petrobrás e de suas subsidiárias. Por mais que ele seja blindado, pois presidente da República não pode ser responsabilizado por atos anteriores ao seu mandato, a sua autoridade será minada por essas notícias, deixando-o vulnerável a pressões de aliados.

Os atuais aliados são a quinta espada de Dâmocles. Assim que ele subir ao trono vai dissolver esse ministério formado sob medida para aprovar o golpe e então os pequenos partidos que o ajudaram a subir vão sentir na pele a sua vocação irrefreável de presidente do PMDB. O partido, além de enorme, é o mais fisiológico, razão pela qual vai pressionar para ocupar o maior número de cargos possível, jogando os partidos menores para escanteio e seus principais comandantes vão fazer isso logo, pois dois anos passam rápido.

A sexta espada de Dâmocles é o povo brasileiro. Afetada diretamente pelas medidas antissociais que estão no forno, a população – e não somente os petistas - entoará o mantra "Fora Temer" de forma cada vez mais veemente, e, se não protestar usando de violência não haverá como reprimi-la, a constituição garante protestos pacíficos.

Temer deve se preparar para dois anos de mandato impopular, durante os quais não poderá pisar fora do palácio.

Serão, na prática, dois anos em prisão domiciliar.

 

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