Dilma: A vida quer é coragem

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Em seu primeiro discurso de posse, em 2011, a presidente então recém eleita Dilma Rousseff citou uma das mais conhecidas frases de Guimarães Rosa em “Grande Sertão: Veredas”: “O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.”  Foi nesta citação que o jornalista Ricardo Amaral buscou o título para a biografia dela lançada em 2012: “A vida quer é coragem”. No muito que ainda se escreverá sobre Dilma,  para completar a trajetória resgatada até àquele momento, haverá o registro do dia de hoje. Homenageando a coragem, cada vez mais rara entre os políticos, na subida ou na descida, ela irá ao encontro de seus algozes e os lembrará de que estão perpetrando um golpe. E que, por mais que o tenham vestido de formalidades, aparências e ritos de um processo legal, não convenceram a consciência democrática, nem aqui nem lá fora.

Seria mais fácil fazer como Collor e renunciar durante ou na véspera do julgamento. Seria mais fácil não comparecer ao Senado, pois o rito não a obriga, dizendo não querer legitimar, com sua presença, o jogo de cartas marcadas urdido pela coalizão entre a traição peemedebista e a ambição tucana, decidido pela aliança entre interesses políticos e econômicos, nacionais e internacionais.

Comparecendo, Dilma não facilita para os golpistas. Nega-lhes o conforto de não ter que ouvi-la, de não ter que encará-la. Ela não vai para uma defesa técnica, para discutir a insubstância das acusações, a artificialidade dos crimes arquitetados para dar forma jurídica ao golpe político. Isso já foi demonstrado à exaustão por sua defesa, através de José Eduardo Cardoso, pelos senadores aliados, pelas testemunhas. Tudo inútil. Dilma vai para expor a verdade do momento histórico, para dar nome ao que fará, algumas horas depois, uma maioria que inclui corruptos e investigados.  Falará para o futuro.

Corajosamente, ela escreve uma passagem do roteiro deste filme trágico que seus algozes preferiam que ficasse como uma lacuna, gerando um corte para a próxima cena. O desfecho evoca muitas comparações históricas e entre elas cabe a lembrança do julgamento de Sócrates que, entre outras coisas, disse a seus algozes: “O difícil não é evitar a morte, mas sim, evitar proceder mal. (.....) Assim sairemos daqui: eu,  julgado por vós como digno de morte. Vós, julgados pela verdade, culpados de impostura e de injustiça.”

O resto será História: mais uma vez a democracia é ferida e a soberania popular é posta de lado.

 

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