Luiz Galvez Rodríguez de Arias

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person galvez grande01Nascido na Espanha, em 1864, Galvez se tornou um dos principais personagens da história acreana devido à sua extraordinária participação num dos episódios centrais da Revolução Acreana. Entretanto, esta participação ainda é, em geral, muito mal compreendida pela história brasileira.

Originado de uma família ligada à marinha, Galvez optou por não seguir carreira militar e estudou ciências jurídicas e sociais na Universidade de Sevilha. Logo começou a trabalhar numa instituição financeira espanhola, onde teve problemas que o levaram a deixar a Espanha para trabalhar no serviço diplomático, inicialmente em Roma e mais tarde em Buenos Aires.

Mas suas aventuras amorosas (em especial aquelas com mulheres casadas), somadas às dividas contraídas na boêmia e no jogo, faziam com que Galvez não conseguisse ficar muito tempo no mesmo lugar. Assim, não demorou muito para que Galvez viajasse para Belém do Pará, nesta época uma das cidades mais ricas do mundo graças à riqueza da borracha, a ponto de ser chamada de “Paris da Amazônia”. Atuando como jornalista no Correio do Pará, Galvez prestou serviços ao consulado boliviano, onde acabou descobrindo um acordo secreto que vinha sendo negociado entre o governo da Bolívia e um sindicato de capitalistas ingleses e norte-americanos visando arrendar o Acre já que a Bolívia não tinha condições de explorá-lo por conta própria.

Galvez denunciou esse acordo no jornal em que trabalhava ganhando grande notoriedade. Graças a isso se dirigiu à Manaus onde trabalhou no jornal Commercio do Amazonas enquanto negociava com o governador amazonense a idéia da independência do Acre como estratégia para anexar esta região ao Brasil. O Governador Ramalho Junior forneceu então recursos financeiros, armas, munições, provisões, um navio especialmente fretado e equipado com um canhão e uma guarnição de vinte homens.

Assim, em comum acordo com os principais seringalistas, em 14 de julho de 1899, numa homenagem aos 110 anos da Queda da Bastilha, marco inicial e simbólico da Revolução Francesa, Luis Galvez proclamou a criação do Estado Independente do Acre, proferindo à célebre frase: “Já que nossa Pátria não nos quer, criamos outra.”

Ao contrário do que foi contado no romance “Galvez: o Imperador do Acre”, de Marcio Souza, de forte conteúdo ficcional, o espanhol nunca foi tratado como imperador, ou coisa equivalente. Foi aclamado pelos brasileiros, isso sim, como Presidente da Republica do Acre e, de pronto, assumiu a legislação, a moeda, a língua brasileira, entre outras medidas para organização desta região que nunca havia conhecido nenhuma forma de governo regular.

Na verdade - por mais que a Republica do Acre tenha sido tratada de forma jocosa pela imprensa brasileira que não compreendia o drama que se desenrolava nos altos rios da Amazônia Ocidental – o governo de Luiz Galvez no Acre teve aspectos extremamente avançados para a época, tais como: organização de ministérios, corpo de bombeiros e exército, criação de hospitais e de escola fluvial para os filhos dos seringueiros, regulamentação das técnicas de extração da borracha e proibição da exploração predatória das seringueiras, incentivo à agricultura numa terra que dependia da importação de todo tipo de gêneros alimentícios, criação da bandeira do Acre utilizando as cores do Brasil e simbolizando a questão dos limites então em disputa, entre muitas outras medidas.

Enfim, Galvez  idealizou um país moderno para aquela época, com preocupações sociais, de meio ambiente e urbanísticas. Obtendo com isso uma significativa aprovação da sociedade local. Tanto assim que, após ter sido deposto pelo seringalista Antonio de Souza Braga, que se recusava a cumprir o bloqueio do envio da borracha para Manaus, em 01 de janeiro de 1900, foi recolocado no cargo de Presidente do Acre, apenas 30 dias depois, pelo mesmo seringalista, que reconheceu a excelência do trabalho que o espanhol vinha desenvolvendo a frente da Republica acreana.

Entretanto, a “Questão do Acre” mexia com poderosos interesses e diante da pressão internacional o governo brasileiro decidiu acabar com a República do Acre mandando para a região uma flotilha da Marinha com a missão de prender seu presidente. Assim, em 15 de março de 1900, Galvez era levado do Acre, pondo fim à rica e extraordinária experiência do Estado Independente. E, ainda por cima, numa atitude completamente ofensiva ao direito e à luta dos brasileiros que aqui habitavam, o governo brasileiro devolveu estas ricas terras à Bolívia.

Luiz Galvez se encontrava então com a saúde muito abalada, pois havia sido acometido pelo impaludismo (como era chamada a malária na época). Depois de cerca de quatro meses de recuperação em Recife, foi deportado para a Europa. Alguns anos depois Galvez ainda retorna ao Brasil, tentando chegar novamente ao Acre, mas o governo do Amazonas o prendeu e recambiou para o  "Forte de São Joaquim do Rio Branco" , no atual estado de "Roraima" , de onde fugiria tempos depois.

Quando morreu na Espanha, em 1935, Galvez se encontrava no mais completo ostracismo, mas sua fundamantal contribuição à causa acreana não seria jamais esquecida.