Prometeu e Epimeteu

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Escrevo sem informações sobre o alcance e a profundidade do veto da presidente Dilma Rousseff ao Código Florestal. Falível lugar de Prometeu, aquele que pensa antes. Sem os contornos do acontecido para fazer seu juízo, resta esforçar-se para não deixar escapar a esperança, com os muitos malefícios da caixa de Pandora, destinados a punir os humanos pela ousadia de imaginar serem capazes de criar aquilo em que acreditam.

Esperança na força do compromisso de quem se comprometeu com todo o povo brasileiro, em carta a mim dirigida: "Sobre o Código Florestal, expresso meu acordo com o veto a propostas que reduzam áreas de reserva legal e preservação permanente, embora seja necessário inovar em relação à legislação em vigor. Somos totalmente favoráveis ao veto à anistia para desmatadores".

Esperança de que as muitas vozes ao redor, dizendo "sim" e "não", enquanto aguardam a presidente apontar o rumo pelo qual andará o país nas próximas décadas, tenham lhe feito pensar na grandiosidade do sentido que só nasce depois, sina de Epimeteu, o irmão de Prometeu.

Que tenha brotado a força para propor e abrir o espaço da construção democrática, indo além de simplesmente dizer "não" aos piores trechos do texto que saiu do Congresso Nacional, chegando às raízes daquilo que o Brasil precisa: firmeza de quem, do privilegiado lugar em que está a presidente, vê o quadro todo e arca com a decisão de governar ousando.

Hoje, 25 de maio, a senhora já tomou sua decisão, presidente Dilma. Espero sinceramente que tenha resistido aos que pensam que, ao pintar de verde-amarelo a devastação das florestas, estão defendendo os interesses da agricultura e da sociedade brasileira.

Que tenha resistido aos apelos para desconsiderar os alertas da ciência e da maioria do povo brasileiro. Que tenha resistido também aos que pregam o retorno aos termos do projeto do Senado, pois isto seria apenas um triste remendo, e não uma solução.

Que tenha se convencido de que o Brasil quer ouvir uma voz mais nítida que a dos "estadistas": a voz de um ser humano no meio de um planeta convulsionado e necessitado de paz. A voz que não pensa apenas nos votos da próxima eleição ou nos negócios da próxima década. A voz do grande tempo.

E que tenha reaberto o debate para que, repetindo o que já disse, tenhamos a chance de, numa espécie de segundo turno, aprofundar o debate e votar novamente, como a senhora tão bem o pode experimentar. Que seu veto tenha sido uma espécie de segundo turno em uma eleição cujo candidato é o futuro do Brasil e de nossas florestas. Leiamos o que nos traz hoje o "Diário Oficial".

 

Reflexões Amana-Key

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Foto OscarMotomura

Numa democracia, é essencial que todos os cidadãos tenham voz. E, é claro, que sejam ouvidos e participem das decisões que – de forma direta ou indireta – irão afetar a vida de todos. Um processo sem nenhum tipo de exclusão.

Hoje, em pleno século 21, estamos num outro nível de consciência. Estamos evoluindo no próprio conceito de democracia quando trabalhamos outros focos de inclusão e exclusão. Ou, olhando sob outro ponto de vista, o conceito de inclusão já possui hoje um significado mais amplo. Estamos cientes de que precisamos “ouvir” não somente os seres humanos, mas todos os seres vivos. É preciso que a própria Natureza tenha voz.

    Pontos para reflexão:

Como assegurar que, em todos os foros – no Congresso, no Judiciário, no Executivo, no mundo empresarial, nas instituições da sociedade civil e até no mundo informal e nas redes sociais – a Natureza seja ouvida com todo o respeito que merece? Devemos ter “representantes” da Natureza em todas as mesas de decisão? Quem estaria em condição de representar toda a complexidade (com toda a genial simplicidade) da Natureza? Como esses “representantes” deveriam ser formados?

    São essas as questões mais nucleares ou temos que ir ainda além?

    Como cada ser humano – independentemente da sua atividade – deveria ser formado para se tornar, a partir do âmago de seu ser, um genuíno representante da Natureza? Não seria essa a mais legítima e poderosa de assegurar que a Natureza esteja sempre presente em todos os foros de decisão, nos formais e também nos informais?

    Seriam essas as questões nucleares ou é preciso ir mais além?

    A questão nuclear não seria aquela que faz o ser humano ser parte da Natureza e não algo separado (e muito menos superior a Ela)?

    Como deveríamos chamar esse tipo de “democracia”, na qual todas as decisões (e ações) levam em conta o Todo Maior do qual os seres humanos fazem parte de modo absolutamente igualitário (e onde não há nenhum tipo de exclusão...)?

    E como tudo isso nos faria dar um verdadeiro salto de patamar na cultura vigente, no Congresso, no Judiciário, no Executivo, no mundo empresarial, na sociedade como um todo?

 

As 5 habilidades da vida digital

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Pedro Dria

Há uma farta literatura na praça discutindo os efeitos da internet. Uns garantem que a web está nos piorando de vários jeitos: ficamos mais burros, nossa vida privada escoa, quiçá web vicia. Outros seguem o caminho contrário. A internet democratiza, derruba ditaduras, vai reconstruir a sociedade, criar utopia. “Net Smart”, de Howard Rheingold, acaba de sair nos EUA e não se encaixa bem em nenhum grupo. Ele simplesmente parte do princípio de que a internet não vai embora e sugere que ainda não aprendemos a nos adaptar a ela. Net Smart, inteligência de rede, é algo que se aprende. E que mesmo gente que já está no mundo digital há um tempo, às vezes, não dominou o pacote completo.

Para Rheingold, o que ele chama de inteligência de rede inclui cinco habilidades A primeira é atenção. É a mais óbvia e também uma das mais difíceis. A web é vasta e baseada em links. Saia em busca dum assunto e é fácil se perder. Cruzou algo interessante, seguiu dali para outro canto. Os estímulos são muitos: o e-mail, o Twitter, o vídeo, tudo pisca pedindo um naco de tempo. Atenção é ter consciência contínua de qual a intenção. Fazer algo até o fim, reservar momentos para cada função. Disciplina para organizar a vida. Atenção é a capacidade de dizer não.

A segunda habilidade é participação. A internet é uma ferramenta útil de cidadania. mas exige que um grupo grande de pessoas decida agir em conjunto. Uma ditadura pode ser derrubada, mesmo que tenha décadas de vida. Tudo começa, no entanto, com a capacidade de um grupo grande de pessoas de se mexer. Um escreve um post em blog, outro vai para o Twitter e colabora para trazer o tema aos tópicos mais populares. É o conjunto que tem poder para ganhos que vão da defesa do consumidor à política. E tudo nasce de uma consciência do cidadão digital: ele tem de participar, senão a tecnologia serve de pouco.

Daí para colaboração. Segundo o raciocínio de Rheingold, o que faz da rede útil não são as inúmeras partículas de conteúdo espalhadas em inúmeros sites e redes. É a capacidade de compartilhar o que há de interessante. Na rede, quem lê algo de bom compartilha. Pode ser um e-mail, um blog, jogar no Facebook ou no Twitter. Num ambiente onde todos colaboram para levar um link, separando o joio do trigo, a vida em rede fica mais rica.

Atenção leva à participação que leva à colaboração. São todos inúteis sem um bom detector de bobagem. É a quarta (e talvez mais rara) habilidade. A internet permite que todos publiquem. É uma ferramenta de democratização. O resultado é também que muita bobagem é publicada. De golpes financeiros a teorias da conspiração, a rede é boa de paranoia e intermináveis deques de slide com bichos simpáticos ou lugares comuns. Perceber de imediato quando o que está à frente é uma bobagem é uma habilidade nova e nada trivial. A informação antes era filtrada. Para a vida on-line, precisamos de novos filtros. O primeiro começa na capacidade de cada um de selecionar o que repassa e pular para o site ou mensagem seguinte quando cabe.

O conjunto de cinco habilidades se encerra com aquela que dá título ao livro. Inteligência de rede. Entender como pessoas funcionam em rede. Ter noção de que pequenos favores on-line criam elos fortes. Que pequenas gentilezas e gestos de atenção fazem o mesmo. Que a capacidade de gerar mais e mais contatos nesta rede é coisa que nos traz inúmeras vantagens ao passo que também cria comunidades mais fortes.

Nos anos 1980, quando Rheingold escreveu seu primeiro livro, ele propunha que computadores se tornariam ferramentas fundamentais. Na década de 90, sugeriu que um novo tipo de comunidade, virtual, estava se formando. Inventou, aliás, o termo comunidade virtual. A virada do século trouxe seu terceiro livro, sugerindo que a tecnologia de comunicação móvel, ancorada em celulares, ia mexer em nossos cotidianos e ter impacto político. Raros intelectuais têm tido a capacidade de enxergar o futuro como ele.

E é uma figura. Hippie da Califórnia, pinta com cores berrantes seus paletós e sapatos. O bigode muito branco é como o de um caubói. Professor de Stanford e Berkeley, as mais influentes universidades do Vale do Silício, não permite que seus alunos naveguem na web durante as aulas. Distrai.

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