Batelão novo

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toinho

Certamente querendo saber se ainda habita em mim o velho espírito aventureiro disposto às grandes viagens, Jorge Viana me dá o endereço de sua nova página na internet e me desafia a fazer algum comentário ou sugestão. Chegou na hora certa: por esses dias vou reativar meu blog, que está há mais de um ano parado, mas permaneço tranqüilo e satisfeito fora de todas as redes sociais, olhando o mundo pelas frestas. Estou pra lá da metade em minha grande viagem interior, bem longe de algumas refregas mundanas, sem vontade de retornar. Mas não perdi o gosto pela conversa nem permito que as distâncias da política me tirem o interesse pela boa comunicação.

Jorge está embarcando num site, no facebook e no twitter, ou seja, na grande e animada balbúrdia dessas milhões de conversas que a rede mundial de computadores permite. Contrariamente a seu estilo avexado (palavra que acreanos entendem bem), demorou a entrar no mundo virtual justamente para fazê-lo com um planejamento ainda mais detalhado do que sempre teve em sua bem sucedida carreira política. Percebo que está animado como todo iniciante. É bom que esteja, pra suportar as pauladas. Muito se ilude quem acha que nas águas da internet a navegação é tranqüila.

Gostei do site. Tem aquele jeitão quadrado da comunicação oficial, é claro, afinal não se pode esperar que o site de um senador da República seja um exemplo de vanguarda experimentalista, mas é simpático e variado, com muita notícia e opinião distribuída nas diversas seções. Tem cara de site de notícias. Ok, tenho mais uma fresta por onde espiar o mundo, vou aparecer por estas bandas com freqüência para ler e, de vez em quando, até mesmo deixar algum recado. Sem exagero, porque tenho outros amigos pra visitar e também tenho que cuidar de meu próprio espaço.

Me veio à memória aquele início dos anos 90, quando encerrou-se a campanha eleitoral em que os meninos do PT ousaram desafiar –com aquele Jorge magrinho e de cabelos pretos- a estrutura política montada no Acre há mais de meio século. Depois de voltar da viagem na balsa (outra coisa de acreano), eu almoçava no Casarão e ficava perdido no centro da cidade. Não tinha mais Elson Martins na TV Aldeia, nem Zé Leite no jornal O Rio Branco, nem Marco Antonio no Imac. Cazuza cantava: “meus inimigos estão no poder”.

Daí, aos poucos, fomos achando novos espaços. Binho foi pra Salvador e o Jorge ficou no CTA premeditando a batalha seguinte, em que conquistaríamos a Prefeitura. O gabinete da Marina na Assembléia era um porto seguro para onde retornávamos das viagens. E viajamos, conhecendo e inventando histórias nas curvas dos rios e beiras de estradas. Vou levar anos pra contar.

Por isso, precisamos de jornais, revistas, sites, blogs, tudo o que der pra juntar palavras pra lembrar o que vivemos e projetar o que ainda queremos viver. É bom que cada um possa contar e inventar suas histórias, melhor ainda quando abre espaço para que os outros também contem e inventem as suas.

Desejo que a página do Jorge Viana tenha sempre boas histórias acreanas, que nela possamos encontrar muitas e variadas pessoas, que por ela possamos ter notícias e debates de todos os tempos e lugares. E que tenha vida longa, permaneça aberta mesmo depois dele terminar sua viagem senatorial e embarcar em outra -quem sabe o rumo que a vida pode tomar, não é mesmo?

 

O que significa mesmo o Cuidado?

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leonardo-boff

Hoje as discussões em torno do desenvolvimento sustentável, um dos temas centrais da Rio+20, sequestraram a categoria de sustentabilidade. Ela não se reduz ao desenvolvimento realmente existente que possui uma lógica contrária à sustentabilidade. Enquanto aquele se rege pela linearidade, pelo crescimento ilimitado que implica exploração da natureza e criação de profundas desigualdades, a sustentabilidade é circular, envolve a todos os seres com relações de interdependência e de inclusão de sorte que todos podem e devem conviver e coevoluir. Sustentável é uma realidade que consegue se manter, se reproduzir, conservar-se à altura dos desafios do ambiente e estar sempre bem. E isso resulta do conjunto das relações de interdependência que entretém com todos os demais seres  e com seus respectivos habitats. A sustentabilidade funda um paradigma que deve se realizar em todos os âmbitos do real.

Para que a sustentabilidade realmente ocorra, especialmente quando entra o fator humano, capaz de intervir nos processos naturais, não basta o  funcionamento mecânico dos processos de interdependência e inclusão. Faz-se mister uma outra realidade a se compor com a sustentabilidade:  o cuidado. Ele também funda um novo paradigma.

Antes de mais nada, o cuidado constiui uma constante cosmológica. Se as energiais originárias e os elementos primeiros não fossem regidos por um sutilíssimo cuidado para que tudo mantivesse a sua devida proporção, o universo não teria surgido e nós não estaríamos aqui escrevendo sobre o cuidado. Nós mesmos, somos filhos e filhas do cuidado. Se nossas mães não nos tivessem acolhido com infinito cuidado, não teríamos como descer do berço e ir buscar o nosso alimento. O cuidado é aquela condição prévia que permite um ser vir à existência. É o orientador antecipado de nossas ações para que sejam construitivas e não destrutivas.

Em tudo o que fazemos, entra o cuidado. Cuidamos do que amamos. Amamos do que cuidamos. Hoje pelos conhecimentos que possuimos acerca dos riscos que pesam sobre a Terra e a vida, se não cuidarmos, surge a ameaça de nosso desaparecimento como espécie, enquanto a Terra, empobrecido, seguirá, pelos séculos afora, seu curso pelo cosmos. Até, quem sabe, que surja um outro ser dotado de alta complexidade e cuidado, capaz de suportar o espírito e a consciência.

Resumimos os vários significados de cuidado construídos a partir de muitas fontes que não cabe aqui referir mas que vem da mais alta antiguiadade, dos gregos, dos romanos, passando por Santo Agostinho e culminando em Martin Heidegger que vêem no cuidado a essência mesma do ser humano, no mundo, junto com  os outros e voltado ao futuro. Identificamos quatro grandes sentidos, todos mutuamente implicados.

Primeiro: Cuidado é uma atitude de relação amorosa, suave, amigável, harmoniosa e protetora para com a realidade, pessoal, social e ambiental.        

Metaforicamente podemos dizer que o cuidado é a mão aberta que se estende para a carícia essencial, para o aperto das mãos, com os dedos que se entrelaçam com outros dedos para formar uma aliança de cooperação e a união de forças. Ele se opõe à mão fechada e ao punho cerrado para submeter e dominar o outro.

Segundo: Cuidado é todo tipo de preocupação, inquietação, desassossego, incômodo, estresse, temor e até medo face a pessoas e a realidades com as quais estamos afetivamente envolvidos e por isso nos são preciosas.

Esse tipo de cuidado, acompanha-nos em cada momento e em cada fase de nossa vida. É o envolvimento com pessoas que nos são queridas ou com situações que nos são caras. Elas nos trazem cuidados e nos fazem viver o cuidado existencial.

Terceiro: Cuidado é a vivência da relação entre a necessidade de sercuidado e a vontade e a predisposição de cuidar, criando um conjunto de apoios e  proteções (holding) que torna posível esta relação indissociável, em nivel pessoal, social e com todos os seres viventes.

O cuidado-amoroso, o cuidado-preocupação e o cuidado-proteção-apoio são existenciais, vale dizer, dados objetivos da estrutura de nosso ser no tempo, no espaço e na história, como no-lo tem mostrado Winnicott. São prévios a qualquer outro ato e subjazem a tudo o que empreendermos.   Por isso pertence à essência do humano.  

Quarto: Cuidado-precaução e cuidado-prevenção constituem aquelas atitudes e comportamentos que devem ser evitados por causa das consequências danosas previsíveis (prevenção) e aquelas imprevisíveis pelo insegurança dos dados científicos e pela imprevisibilidade dos efeitos prejudicais ao sistema-vida e  a sistema-Terra(precaução).

O cuidado-prevenção e precaução nascem de nossa missão de cuidadores de todo o ser. Somos seres éticos e responsáveis, quer dizer, nos damos conta das consequências benéficas ou maléficas de nossos atos, atitudes e comportamentos.

Como se deduz, o cuidado está ligado a questões vitais que podem significar a destruição de nosso futuro ou a manutenção de nossa vida sobre esse pequeno e belo planeta. Só vivendo radicalmente o cuidado garantiremos a sustentabilidade necessária  à nossa Casa Comum e à nossa vida.

 

Diretor do Vox Populi: Dilma tem vantagem de não ostentar projeto de poder

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Marcos Coimbra acredita que presidenta vai tão longe quanto puder na tentativa de formar um novo modelo de administração política do país.

São Paulo – O diretor do Instituto Vox Populi, Marcos Coimbra, acredita que os partidos de oposição deveriam deixar para trás os "maus ensinamentos" do convívio político e apoiar a tentativa de mudança na lógica que rege a relação entre Executivo e Legislativo. Para ele, o modelo atual determina que os parlamentares votem contra o Palácio do Planalto, mesmo que saibam que o projeto em questão é de interesse do país. 

Coimbra entende que a recente aprovação do Código Florestal na Câmara não se deu unicamente pela força da bancada de representantes do agronegócio, mas pela soma de forças de oposição que gostariam de aplicar uma derrota ao governo de Dilma Rousseff. Sobre a presidenta, aliás, o analista político avalia que ela irá tão longe quanto puder na mudança do paradigma da política nacional. “A Dilma, ao contrário dos políticos tradicionais, não tem um projeto de ficar no poder. A Dilma tem um projeto de administração e ela enxerga dificuldades para executar esse projeto de administração de uma maneira bem diferente de um político mais tradicional”, afirma.

Ele acredita que a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Congresso para apurar as relações entre políticos e o contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, pode começar a definir quais partidos estarão na chapa do PT em 2014, de amplo favoritismo. O diretor do Vox Populi avalia que as conexões entre parte da imprensa e a quadrilha ligada à exploração de jogos ilegais também precisa entrar na pauta do colegiado. “Dizer que quando alguém que questiona isso está questionando a imprensa é usar o conceito de liberdade de imprensa para se proteger, para proteger uma prática que é francamente condenável”, adverte.

Confira a seguir a primeira parte da entrevista concedida à Rede Brasil Atual.

Existe uma tentativa de discutir e aprovar a questão do financiamento público de campanha. Isso implicaria mudança na relação política?

Eu tenho, como observador e como analista, um entendimento de que o financiamento público seria muito positivo para o país e acredito que seria uma maneira em que se poderiam considerar a interferência excessiva do poder econômico, como no processo eleitoral, sendo diminuído e até eliminado. Evidente que se fizéssemos um sistema de financiamento público, a força de interferência de lobbies empresariais, associativos e corporativos seria muito menor.

O modelo que está em discussão na Câmara poderia logo ser posto em prática. Curioso que no Senado todos os partidos aprovaram a ideia. Faltava definir um modelo mais específico, mas houve acordo entre as principais lideranças políticas. Na Câmara, o relator apresentou uma proposta, mas as coisas ficaram um pouco travadas. Não sei qual andamento ela terá, mas de qualquer maneira já se decidiu que não havia por que correr para aprovar ainda a tempo de aplicar para as eleições de 2012.  Mas provavelmente nós teremos tempo ao longo deste ano e do próximo, se houver a chamada vontade política, para votar ainda a tempo de valer para 2014.

De que maneira todos sairiam ganhando com uma mudança na relação entre os partidos políticos e entre o Legislativo e o Executivo?

Uma das razões que explicam a duração dos embates políticos no Brasil é a partidarização excessiva de algumas questões. É totalmente natural que alguns temas sejam tratados a partir da identificação partidária do parlamentar. Mas existem outros em que o que está em jogo é uma coisa mais ampla, que é o interesse nacional, para usar como uma palavra que serve em situações como essa. Não é incomum e diferente em outros lugares do mundo, quando o sistema político está perante questões que não são partidárias, são quase que consenso, em questões como essa eu acredito que o mais correto seria o parlamentar votar contra o consenso. E na votação do Código Florestal, nós vimos isso.

Quem de fato acabou tendo a vitória defende as teses que não vão ao encontro do interesse nacional de longo prazo, pelo menos a mim me parece. Quem acabou apoiando isso não foi o setor diretamente interessado, mas uma coalizão na qual pessoas que no fundo não acreditam que essa é a melhor solução para o Brasil, e votaram desse jeito apenas para derrotar o posicionamento do governo. Isso que eu acho que era um mau ensinamento da época em que o próprio PT tinha um comportamento muito negativo, mas que foi revisto quando o partido chegou ao governo. O que é estranho é que as atuais oposições que foram governo e cobravam do PT, agora fazem o mesmo jogo.

Dilma tem conseguido imprimir essa mudança de lógica política ou ainda é cedo? Qual o limite dessa mudança?

Eu acho que ela está fazendo. Se ela consolidará como uma marca da administração dela, talvez seja coisa para dizer. A Dilma, ao contrário dos políticos tradicionais, não tem um projeto de ficar no poder. A Dilma tem um projeto de administração e ela enxerga dificuldades para executar esse projeto de administração de uma maneira bem diferente de um político mais tradicional, até que o Lula. O Lula tinha uma tolerância que ela não tem. E isso é muito salutar para ficar na política brasileira. É muito positivo. Agora, até que ponto ela irá é difícil dizer. Eu acho que ela vai tão longe quanto ela conseguir e é desejável para todos que ela tenha apoio.

Você tem alguma expectativa de que a CPMI do Cachoeira resulte em revelações efetivas ou se transformará em mais um palco para essa partidarização excessiva?

Ele é um exemplo 100% político. Em outros casos não vejo, pelo menos por enquanto, que já esteja na hora de invocar o que seria, digamos, interesse nacional. Eu acho, no entanto, que já está na hora de uma oportunidade para uma revisão do relacionamento do sistema político com os grupos de interesse, nesse caso, envolvendo uma organização com atividades ilegais ou criminosas. É o mais longe que pode ir na privatização da política, fazendo não só parte do sucesso de um grupo econômico e de um grupo de interesses, mas de um grupo econômico e de interesses cujas raízes estão na ilegalidade. Se for colocada essa discussão, o assunto passa a ser suprapartidário. Mas, por enquanto, não, por enquanto nós estamos vendo um tensionamento político característico da vida parlamentar. Puxam para um lado, puxam para o outro, partidariamente.

Discutir a relação entre veículos de imprensa, criminosos e políticos pode ser benéfico à sociedade?

Para mim não tem dúvida. O que nós tivemos nos últimos anos e as revelações que até agora foram feitas sugerem que houve uma deliberada concordância dos veículos de imprensa em nada fazer para denunciar uma coisa que estava vendo. Denunciar como imprensa e não como autoridade policial, que não é o caso. Em troca de uma estratégia de tomada de posição política dos veículos. O que se fez foi a aplicação do velho princípio de que os fins justificam os meios – para atacar o governo vale qualquer coisa, inclusive fazer um papel muito discutível de colaboração duradoura, digamos assim, com o grupo do Cachoeira. Dizer que quando alguém que questiona isso está questionando a imprensa é usar o conceito de “liberdade de imprensa” para se proteger, para proteger uma prática que é francamente condenável. Não se conhece nos anais da imprensa política internacional um caso desse tipo. Em Watergate os repórteres do Washington Post usaram de alguém que fazia confidências e que estava diante do governo. É completamente diferente.

É cedo para falar sobre companhia nessa chapa do PT em 2014? O PMDB está hoje mais desgastado do que estava naquele momento, em 2010, e o PSB está mais forte?

É difícil dizer. Talvez seja uma das coisas que a CPI pode fazer: levar esse processo para um lado ou para o outro. A impressão que eu tenho é que a preferência do Lula é manter a coligação com o PMDB voltando a apresentar um candidato a vice. Fala-se muito que um candidato que o Lula tinha como muito provável seria o Sérgio Cabral. Isso do jeito que é a coisa ficou agora, certamente mudou. Pode ser que o Sérgio Cabral se recupere, mas nesse momento essa possibilidade ficou muito menor. Agora, o PSB é parte importante da equação de 2014, pode ser um caminho para o Eduardo Campos ser candidato a vice junto com a Dilma e, certamente, se Lula for o candidato, com ele.
 
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