Equilíbrio

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O desastre com os reatores de Fukushima, causado pelo terremoto e tsunami de março do ano passado, abalou a indústria nuclear, e muitos países, inclusive o próprio Japão, colocaram sob suspeição o uso de fonte nuclear para a produção de energia. Desdobramento compreensível, pois, no mínimo, era necessário entender o que provocara, nas minúcias técnicas, a perda de controle do complexo de usinas.

Vários planos de expansão de geração termonuclear foram revistos no mundo, também no Brasil, com a postergação de algumas unidades previstas para até 2020. Estabeleceu-se um novo prazo, para dez anos mais adiante (2030).

Em tempos de discussões sobre clima, Código Florestal e na contagem regressiva para a conferência da Rio+20, inevitável o assunto voltar ao debate. O Brasil conta com as duas usinas de Angra e constrói uma terceira, no mesmo local. O peso do parque de Angra é pequeno em termos nacionais, mas ajuda a sustentar o fornecimento ao Rio nas horas de pique.

O debate só faz sentido se considerar todos os aspectos envolvidos na questão. O meio ambiente, claro, é um deles, e dos mais importantes. Outro, a crescente necessidade de energia de um país dono de uma das sete maiores economias do planeta, e que pretende crescer a uma média anual de 5%. Para se ter uma ideia do que isso significa: a esta velocidade de expansão, o Brasil precisará, a cada ano, de uma quantidade adicional de energia equivalente a uma Belo Monte, hidrelétrica em construção no Rio Xingu.

Conhecido por ter um dos maiores potenciais de geração por hidrelétricas, a mais limpa fonte de energia, o Brasil costuma ser visto como um país sem maiores gargalos energéticos à frente. Não é tão simples assim.

Dos estimados 160 mil MW (ou 160 GW) deste potencial, metade já é explorada. Este número, isolado, alimenta otimismo. Porém, como as melhores alternativas de geração próximas ao mercado consumidor já são utilizadas (Sudeste, Sul), as possibilidades concretas de expansão do sistema de hidrelétricas estão distantes, ao Norte. Caso de Belo Monte.

Há problemas específicos nesta nova fronteira de produção de energia. Talvez o mais grave seja o ambiental. O licenciamento da usina do Xingu saiu em meio a escaramuças e conflitos sérios dentro da máquina burocrática. Tudo indica que a resistência política à exploração dos rios amazônicos será crescente. Há a alternativa de construção de usinas-plataformas: seriam construídas em clareiras, depois deixadas para trás, apenas com o pessoal necessário à operação das turbinas. Imita a exploração de petróleo no mar.

Seja como for, com o veto a grandes reservatórios, para evitar a inundação de extensas áreas - cuidado razoável -, as usinas no Norte não poderão utilizar todo o potencial de geração dos rios.

Como não faz qualquer sentido sequer pensar em conter o crescimento de um país com enormes déficits sociais, a questão é saber quais serão as fontes alternativas de energia. Carvão e gás são poluidores, embora a tecnologia possa reduzir os danos. E são recursos finitos. A energia eólica promete, mas é difícil imaginar todo um parque industrial na dependência da relativa incerteza dos ventos.

A energia nuclear é, então, uma alternativa a não ser descartada. É preciso, de fato, entender o que houve no Japão (há confiáveis relatos de graves erros técnicos cometidos pelos japoneses). Mas não existe outra fonte energética tão promissora quanto a nuclear. Até do ponto de vista ambiental.

 

Discurso resgata PT para a História

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Os 27 anos ininterruptos em que o Brasil se mantém na democracia, o mais longo período desde a proclamação da República, longe de serem uma linha reta em ascensão, têm sido um trajeto de percalços, de altos e baixos. Nenhuma novidade, porque os processos históricos são assim mesmo, nada lineares. Importa que a tendência seja positiva - e é este o caso. Em todo este tempo, houve fatos marcantes, emblemáticos do avanço da sociedade no autoaprendizado na vida democrática, no exercício do convívio tolerante com ideias contrárias, na subordinação ao voto popular, no respeito às instituições.

O dia 16 de maio de 2012 contribui para esta já longa viagem com um destes fatos carregados de simbologia. A presidente Dilma Rousseff poderia dar posse à Comissão da Verdade numa cerimônia com a pompa merecida. Teria seguido o manual dos cerimonialistas. Mas optou por algo mais, e terminou revestindo o evento de uma importância para além da própria comissão.

O discurso da presidente foi à altura da cerimônia, da qual participaram, convidados por ela, todos os ex-presidentes vivos. Os registros em foto e vídeo de Sarney, Collor, FH e Lula, juntos, servem de testemunho de que o Brasil subiu um patamar na sedimentação da maturidade política e do regime democrático. Até agora, nas Américas, apenas os Estados Unidos podiam ostentar, em eventos, seus ex-presidentes, lado a lado, adversários ou não. Aconteceu quarta-feira em Brasília.

A presença dos quatro e as citações cerimoniosas e adequadas a Tancredo Neves, Itamar Franco e ao próprio Ulysses Guimarães, o "Senhor Diretas", ajudaram a destacar o sentido da solenidade: tratava-se de um ato de Estado, não de governo, ressaltou Dilma no discurso, de traje escuro, sem qualquer peça vermelha.

Além de enquadrar o trabalho da Comissão da Verdade na sua melhor dimensão - sem revanchismos -, as referências feitas por Dilma ao contexto que cerca o início do trabalho de exumação de uma fase tenebrosa do país podem ser entendidas como uma reconciliação do seu partido, o PT, com a História. Afinal, o PT se recusou a votar em Tancredo Neves no colégio eleitoral - puniu petistas que o fizeram - e, num primeiro momento, a assinar a Constituição de 1988. Também não quis participar do governo Itamar, vice de Collor, formado num momento grave em que o impeachment fez ressurgir o temor de mais um curto-circuito institucional. Foi como se o PT rejeitasse a via da negociação e do entendimento políticos para a superação de impasses. O discurso de Dilma reafirma a vertente democrática petista. Confirmam-se, então, como minoritárias as vozes autoritárias dentro da legenda.

A comparação não é perfeita, pelas diferenças históricas, mas, quarta, o Brasil de Dilma lembrou a África do Sul de Nelson Mandela, vítima do regime do apartheid e que soube patrocinar uma transição sem traumas e acertos de contas revanchistas. Na verdade, o Brasil está em estágio de conciliação bem à frente daquele em que se encontrava a África do Sul quando Mandela saiu da prisão para assumir a transição de uma ditadura racista para um regime democrático. A Comissão da Verdade precisa ser o estágio final desta conciliação, consagrada no discurso da presidente.

 

Cooperação como eixo de sustentabilidade

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maria-alice-setubal

Destacam-se agora coletivos virtuais, arranjos produtivos locais, a economia solidária e o financiamento colaborativo de projetos (crowdfunding)

Na sociedade capitalista, a competição tem sido o motor das atividades produtivas e das inovações tecnológicas e científicas, assim como geradora de riqueza e padrões diferenciados de vida. A competição é importante para a eficiência e a qualidade do funcionamento do sistema econômico.

Entretanto, a cooperação vem ganhando destaque, expressando-se em mecanismos como os consórcios e os arranjos produtivos locais, a economia solidária, o comércio justo, os coletivos virtuais, os crowdfundings (financiamento colaborativo de projetos), entre outros.

O mundo globalizado criou uma interdependência visceral entre o local, o regional, o nacional e o global, assim como a necessidade de interação entre o indivíduo com seu entorno socioambiental.

Assim, é premente o envolvimento entre o local, o regional e o global, bem como as parcerias entre sociedade civil, governos e empresas para o desenvolvimento de programas, produtos e políticas. Em cada um desses setores, atuando desde o local ao global, já há uma abertura ao diálogo com diferentes públicos.

A cooperação é, portanto, condição para o desenvolvimento da sociedade e para a efetivação de políticas sociais, educacionais, culturais e esportivas, baseadas em valores como os direitos humanos, equidade social, diversidade cultural e sustentabilidade. Esses são valores caros à nossa cultura e direitos explicitados na Constituição, bem como em compromissos internacionais assinados pelo Brasil.

Construir metas, princípios e práticas baseados na cooperação não é simples, pois exige a concretização de premissas como confiança, transparência, capacitação e parcerias.

A construção de vínculos de confiança pressupõe escuta e respeito como alicerces das políticas. Saber ouvir e falar são aprendizados cotidianos e consistem em reconhecer o outro e a diferença, olhar com respeito, atenção e flexibilidade.

Transparência e prestação de contas são formas de democratizar o acesso às informações e tornar públicos as ações e processos. Situar o interesse público como eixo central das ações e promover o controle social das políticas é fundamental para o fortalecimento democrático.

Mudanças de hábitos e valores culturais demandam persistência em um processo sustentado por mediações e diálogo e pressupõe capacitação continuada e formação de lideranças. É preciso também o acompanhamento e avaliação de resultados para a construção de ações mais consistentes, que empoderem seus participantes.

As diversidades regionais no complexo mundo globalizado exigem políticas territorializadas, transversais e com diferentes parceiros para alcançar resultados que atendam às demandas de cada lugar e fortaleçam suas potencialidades. O estabelecimento de parcerias, mediações e articulação de ações e políticas no território é condição fundamental para a efetividade das políticas.

Os desafios do século 21 exigem novas formas de ver, pensar, sentir e agir, forçando-nos a criar modelos de referência inéditos na história da humanidade. Os limites do crescimento a qualquer custo estão sendo expostos e as questões da ética ocupam espaço cada vez maior no debate contemporâneo.

Ações legais sob o crivo da lei não são necessariamente éticas sob os princípios do cuidado com o planeta e dos direitos humanos. Setores diversos em diferentes países estão desenvolvendo práticas inovadoras, criando um novo referencial de pensamento e atuação e superando o paradigma da competição.

O ser humano é intrinsecamente um ser social, o que nos permite sonhar com a utopia de uma sociedade em que a cooperação seja o eixo do desenvolvimento.

 
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