Não há sustentabilidade sem paz

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andre trigueiro110512

É impressionante o volume de recursos que a indústria armamentista movimenta no Brasil e no mundo. O que sobra para armas e munições, falta para o desenvolvimento sustentável.

A Universidade de Heildelberg – a mais antiga da Alemanha – revela a cada ano a quantidade de guerras em andamento no planeta. Em 2011 o número de conflitos internacionais triplicou e alcançou o nível mais alto desde 1945. De acordo com o levantamento, existiriam hoje no mundo 20 guerras e 166 conflitos armados. E a tendência em 2012, ano da Rio+20, seria esse número crescer ainda mais. Boa parte dos países que se reunirão no Brasil em junho para debater os rumos do desenvolvimento sustentável participam ativamente dos chamados “jogos de guerra” auferindo lucros fabulosos com a venda de armas, munições e toda sorte de artefatos bélicos para clientes nem sempre identificados com clareza pelos respectivos governos.

Na condição de anfitrião, o Brasil não faz feio no ranking dos países que mais exportam armas. Dados apurados pela Agência Pública de Reportagem e Jornalismo Investigativo junto ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, revelam que o valor das exportações de armas leves triplicou entre 2005 e 2010, chegando a US$ 321,6 milhões. Foram quase 4,5 milhões de armas exportadas no período. O Exército se nega a informar detalhes sobre os negócios, mas a informação sempre aparece, ainda que de forma acidental. Foi assim quando se descobriu que minas terrestres de fabricação brasileira foram usadas pelo governo da Líbia contra os que combateram as forças do regime do ditador Muamar Khadafi. No Bahrein, manifestantes fotografaram bombas de gás lacrimogêneo com a inscrição“made in Brazil”(e a bandeira nacional ao lado do prazo de validade do artefato) que seriam usadas na repressão aos que combatiam a monarquia em pleno embalo na Primavera Árabe.

Os Estados Unidos do democrata Barack Obama – que vem defendendo publicamente a redução do arsenal atômico em escala mundial – lideram com folga o mercado internacional de armas leves ou pesadas com 43% de tudo o que é comercializado. Segundo a agência de notícias russa RT, os 100 maiores fabricantes de armas do mundo faturaram 411,1 bilhões de dólares em plena crise econômica internacional. No top 10 do ranking das maiores empresas do setor, sete são americanas. Ainda segundo a agência, o mercado de armas cresce 22% ao ano no mundo e as perspectivas de negócio são animadoras especialmente nos países emergentes.

Não é possível ainda imaginar um mundo totalmente sem armas e a aquisição de armamentos contribui em certa medida para a manutenção da paz e da ordem entre os países. Mas a farra da indústria armamentista esvazia a perspectiva de construirmos um modelo efetivo de desenvolvimento sustentável. A economista e escritora Hazel Handerson fez a conta e chegou a um resultado interessante: com apenas 25% dos gastos militares anuais em todo o mundo seria possível oferecer em relativamente pouco tempo água limpa, saúde e habitação para todos os seres humanos, eliminar a fome e o analfabetismo, proporcionar energia limpa e renovável, além de outros importantes benefícios em escala global. Debater sustentabilidade sem questionar frontalmente os abusos da indústria armamentista, é seguir o rumo de uma bala perdida.

*André Trigueiro é jornalista

**Artigo publicado na edição de maio da Revista GQ

 

Código Florestal "feito por maluco"

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joseeli

Será absolutamente legítimo o veto integral de Dilma com a promulgação de uma MP que restaure o texto aprovado pelo Senado em dezembro
O projeto para revogar o código florestal que a Câmara submeteu à presidente Dilma foi "feito por maluco", diz o deputado federal Nelson Marquezelli (PTB/SP), um dos mais tarimbados líderes do agronegócio exportador, em entrevista ao site Congresso em Foco.
Não há como ser menos severo com o grupo de pretensos ruralistas que conseguiu arrastar o PMDB para um dos momentos mais vergonhosos de sua história, conspurcando a memória de todos os que acompanharam o dr. Ulysses em sua epopeia contra a ditadura militar.
Por incrível que possa parecer para muita gente, se o "Novo código florestal de 1965" for revogado por algo parecido com esse projeto de lei 1876/99, o retrocesso será muito mais político e econômico do que ecológico.
Ele, ao consolidar estragos ambientais já perpetrados, promoverá imensos ganhos patrimoniais aos detentores de domínios no Centro-Oeste e no Norte nos quais as áreas de preservação permanente (APP) foram derrubadas, queimadas e maquiadas com capim. Não para expandir a produção agrícola, como muitos ingenuamente acreditam.
É o que basta para entender tanto a revolta desse grande exportador de laranja lá de Pirassununga como a geografia da votação do relatório. Aprovado com 100% dos votos das bancadas de Tocantins e de Mato Grosso, ou com mais de 85% dos votos das de Rondônia, Goiás e Roraima, foi rejeitado pelas bancadas de São Paulo (41 a 26) e do Rio de Janeiro (25 a 15).
O projeto anterior, agora apelidado de "monstrengo", havia sido aprovado em 24 de abril de 2011 por 410 dos 513 deputados. Esse novo, "feito por louco", apesar de ter sido cavalo da batalha intergovernamental do PMDB contra o PT, só obteve 274 votos favoráveis, pouco mais de 50%. E menos de 50% pelo critério do número de eleitores que botaram os atuais deputados na Câmara.
Será absolutamente legítima, portanto, a possível decisão de veto integral com a imediata promulgação de uma medida provisória que restaure ao menos aquele bom senso que prevaleceu no Senado em 6 de dezembro. Com chances de se evitar três sérios cochilos ali cometidos.
Não é possível ignorar que a Lei de Crimes Ambientais (9.605, de 12/02/1998) foi regulamentada desde 1999. Posteriores desmatamentos de APP foram crimes dolosos que, se perdoados, configurariam mais indulto que anistia. A escolha de julho de 2008 para demarcar o passivo é uma mesquinha vingança contra a regulamentação específica do governo Lula.
Se houver excepcionalidade para os chamados "pequenos produtores", não se deve usar a figura do imóvel rural (com área de até tantos módulos), porque não há qualquer correspondência entre propriedade (imóvel) e empreendimento (estabelecimento).
É preciso respeitar a Lei da Agricultura Familiar (11.326, de 24/07/2006), cujos critérios impedem que imóvel voltado à especulação fundiária seja tomado como se fosse dedicado à agricultura de pequena escala.
Terceiro, mas não menos importante: é preciso banir pastagem em APP, pois não há pior atentado ao beabá do conhecimento agronômico, como bem enfatizou o agroexportador e deputado Marquezelli.

JOSÉ ELI DA VEIGA, 63, é professor dos programas de pós-graduação do Instituto de Relações Internacionais da USP (IRI/USP) e do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ). Site: www.zeeli.pro.br

 

Quem cuida do cuidador?

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leonardo-boff 09

As primeiras e mais ancestrais cuidadoras são nossas mães e avós que desde o início da humanidade cuidaram de sua prole. Caso contrário, não estaríamos  aqui escrevendo  sobre o cuidado.
Neste contexto queremos mencionar duas figuras, verdadeiros arquétipos do cuidado: o médico suiço Albert Schweitzer (1875-1965) e a enfermeira inglesa Forence Nightingale (1820-1910).
Albert Schweitzer era exímio exegeta bíblico e um dos maiores concertistas de Bach de seu tempo.  Aos trinta anos já com fama em toda a Europa, largou tudo, estudou medicina para, no espírito das benaventuranças de Jesus, cuidar dos mais pobres dos pobres (os hansenianos) em Lambarene no Gabão. Numa de suas cartas  confessa explicitamente: ”o que precisamos não é de missionários que queiram converter os africanos, mas de pessoas dispostas a fazer aos pobres o que deve ser feito, se é que o Sermão da Montanha e as palavras de Jesus possuem algum valor. Minha vida não está nem na arte nem na ciência mas em ser um simples ser humano que no espírito de Jesus faz algo por insignificante que seja”. Foi dos primeiros a ganhar o Prêmio Nobel da Paz.
Por cerca de quarenta anos viveu e trabalhou num hospital por ele construido com o dinheiro de tournés de concertos de Bach. Nas poucas horas vagas, teve tempo para escrever vasta obra centrada na ética do cuidado e do respeito pela vida. Formulou assim seu lema: “a ética é a responsabilidade ilimitada por tudo o que existe e vive”. Numa outra obra  assevera:”a idéia chave do bem consiste em conservar a vida, desenvolvê-la e elevá-la ao mais alto valor; o mal consiste em destruir a vida, prejudicá-la e impedir que se desenvolva plenamente; este é o princípio necessário, universal e absoluto da ética”.                       
Outro arquétipo do cuidado foi a enfermeira inglesa Florence Nightingale. Humanista e profundamente religiosa, decidiu melhorar os padrões da enfermagem em seu país.
Em 1854 com outras 28 companheiras Florence se deslocou para  campo de guerra na Criméia da Turquia, onde se empregavam bombas de fragmentação que produziam muitos feridos. Aplicando no hospital militar,  a prática do rigoroso cuidado, em seis meses reduziu de 42% para 2% o número de mortos. Esse sucesso granjeou-lhe notoriedade universal.
De volta a seu pais e depois nos EUA, criou uma rede hospitalar que aplicava o cuidado como eixo norteador da enfermagem e como sua ética natural. Florence Nightingale continua  a ser  uma referência inspiradora.
O operador da saúde é por essência um curador. Cuida dos outros como missão e como opção de vida. Mas quem cuida do cuidador, título de um belo livro do médico Dr. Eugênio Paes Campos (Vozes 2005)?
Partimos do fato de que o ser humano é, por sua natureza e essência, um ser de cuidado. Sente a predisposição de cuidar e a necessidade de ser ele também cuidado. Cuidar e ser cuidado são existenciais (estruturas permanentes) e indissociáveis.
É notório que o cuidar é muito exigente e pode levar o cuidador ao estresse. Especialmente se o cuidado constitui, como deve ser, não um ato esporádico mas uma atitude permanente e consciente. Somos limitados, sujeitos ao cansaço e à vivência de pequenos fracasos e decepções. Sentimo-nos sós. Precisamos ser cuidados, caso contrário, nossa vontade de cuidar se enfraquece. Que fazer então?
Logicamente, cada pessoa precisa enfrentar com sentido de resiliência (saber dar a volta por cima) esta situação dolorosa. Mas esse esforço não substitui o desejo de ser cuidado. É então que a comunidade  do cuidado, os demais operadores de saúde, médicos e o corpo de enfermagem devem entrar em ação.
O enfermeiro ou a enfermeira, o médico e a médica sentem necessidade de serem também cuidados. Precisam se sentir acolhidos e revitalizados, exatamente, como as mães fazem com seus filhos e filhas. Outras vezes sentem necessidade do cuidado como suporte, sustentação e proteção, coisa que o pai proporciona a seus filhos e filhas.
Cria-se então o que o pediatra  R. Winnicott chamava de “holding”, quer dizer, aquele conjunto de cuidados e fatores de animação que reforçam  o estímulo para continuarem no cuidado para com pacientes.
Quando este espírito de cuidado reina, surgem relações horizontais de confiança e de mútua cooperação, se superam os constrangimentos,  nascidos da necessidade de ser cuidado..
Feliz é o hospital  e mais felizes  são ainda aqueles pacientes que podem contar com um grupo de cuidadores. Já não haverá “prescrevedores” de receitas e aplicadores de fórmulas mas “cuidadores” de vidas enfermas que buscam saúde. A boa energia que se irradia do cuidado corrobora na cura.

*Leonardo Boff é teólogo e escritor

 
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